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11/06/2010 / Marcio Kohara

Sextas do baú – Copa do Mundo

Tirando do baú uma coluna antiga, que fiz para o BestCars pela ocasião da Copa do Mundo de 2006… Data: 12 de junho de 2006

Sobre o resultado final daquela Copa… Bom, a seleção brasileira não ganhou o hexa porque está tentando na África de novo, não é mesmo? Isso foi alguns dias antes de Fernando Vanucci declarar que a África do Sul era logo ali… Ele estava certo…(e não, este texto não foi inspirado na performance sensacional de Vanucci naquela noite de inverno de 2006).

Enfim, vamos deixar de papo furado e vamos ao texto.

Maior que a Fórmula 1

O circo da Fórmula 1 olha para outras coisas que não o seu próprio umbigo? A resposta é sim.

Você, caríssimo leitor, caso não tenha chegado de Marte nas últimas horas, sabe que a Copa do Mundo de futebol começou na última sexta feira (9 de junho). E, como já deve ter ouvido em algum lugar, vivemos aquele período em que os povos se unem, torcem em uníssono e se emocionam naquela que é a principal competição do esporte mais popular do mundo, certo? Certo.

Neste período, nós –brasileiros-, somos ainda mais brasileiros –seja lá o que isso signifique de fato-, nos imbuímos de orgulho por esta “Pátria de chuteiras”, e torcemos para que o time comandado por Carlos Alberto Parreira cumpra os seus objetivos –ou seja, vença a Copa do Mundo provando a supremacia do futebol canarinho sobre os demais. Se sim, ótimo. Saímos em festa e comemoramos o Hexa. Caso contrário, todos os integrantes do time serão execrados em praça pública, certo? Certo.

Muito bem. E o que eu, numa coluna que fala de automobilismo, estou escrevendo obviedades futebolísticas –assunto tão bem tratado na mídia por outros especialistas na área?

Simples. Apesar de não parecer muito, a Fórmula 1 é feita por gente. Gente que, como nós, também pode se interessar por futebol –mesmo que seja só nestes momentos de disputa da Copa do Mundo.

Assim, ações como a do alemão Michael Schumacher –um reconhecido fanático por futebol-, que adiantou uma reunião da GPDA (Grand Prix Drivers Association, ou Associação dos Pilotos de Fórmula 1) para poder acompanhar boa parte da estréia do “Nationalelf” –como é conhecida a seleção alemã- na Copa não são exatamente uma novidade.

Não acontecerá nesta edição –pelo menos nos finais de semana de GPs-, mas os mecânicos da Ferrari tradicionalmente são liberados para torcer pela “Squadra Azzurra” quando esta entra em campo. Eles trabalham até mais tarde depois, para compensar. Mas podem ver os jogos da seleção italiana sem se preocuparem com as “macchinas”.

Algumas passagens relacionam Fórmula 1 e Copas do Mundo. Citarei duas que ilustram esta relação.

O mais lembrado pelos brasileiros ocorreu em Junho de 1986, em Detroit, quando Ayrton Senna apareceu pela primeira vez carregando a bandeira brasileira depois de vencer o Grande Prêmio dos Estados Unidos. O que isto tem a ver com Copa do Mundo? No dia anterior, a seleção brasileira de Careca e Zico havia sido desclassificada nos pênaltis pela França de Michel Platini, e Senna declarou que esta comemoração era para aumentar a moral dos brasileiros depois do ocorrido em Guadalajara. Depois, esta comemoração seria uma espécie de marca registrada do piloto.

Mas acredito que mais interessante do que esta tenha sido uma guerra de provocações estampada nos carros da Jordan e Minardi, durante a Copa de 1994. Tudo começou quando o irlandês Eddie Jordan estampou o resultado do embate do seu Eire contra a Itália -1 a 0 para os irlandeses, no horroroso Grupo E daquela Copa- no lugar de um logo do governo de seu país que ocupava um lugar privilegiado na carroceria de seus carros. Giancarlo Minardi comprou a provocação e devolveu na mesma moeda quando a Azzurra se classificou para as quartas de final ao vencer a Nigéria –por 2 a 1-, enquanto os irlandeses voltavam para casa ao perder dos holandeses. “Itália in, Ireland out” estampavam os carros da Minardi. No fim, Eddie Jordan riu por último. Afinal, empregava um brasileiro –Rubens Barrichello-, que, orgulhoso, exibiu em seu Jordan um adesivo que lembrava o resultado final daquela Copa –Brasil Campeão do Mundo.

Claro que poderia falar aqui que as Copas do Mundo de Futebol ajudam a Fórmula 1 a se lembrar de sua origem –as nações. Isso vem desde os tempos de antanho, quando nem a Copa do Mundo, nem a Fórmula 1 não tinham a dimensão que têm hoje.

Antes dos patrocínios, a Fórmula 1 pintava seus carros com as cores referentes aos países de origem das suas equipes. Assim, enquanto os ingleses pintavam seus carros de verde-escuro –conhecido como “British Racing Green”-, os italianos os pintavam de vermelho, os franceses os pintavam de azul claro e os alemães de prata. Depois da revolução comercial implantada por Colin Chapman e sua Lotus vermelha bancada pelos cigarros Gold-Leaf, os carros da categoria perderam sua identidade nacional, e vestiram a camisa do dinheiro.

Hã? Hoje os italianos da Ferrari são vermelhos, os franceses da Renault são em parte azuis-claros, os alemães da Mclaren-Mercedes são pratas e a Jaguar era verde-escuro quando corria? Sim, é verdade. Mas, com a exceção da Ferrari –apesar desta ter mudado a sua cor para se adequar ao layout exigido pela Phillp Morris e seus cigarros Marlboro-, todas as outras se coloriram para atender interesses comerciais de DaimlerChrysler/Mercedes-Benz, Japan Tobacco/Mild Seven e Ford/Jaguar.

Mas não é exatamente sobre isso que eu queria falar.

Hoje, a Fórmula 1, enquanto negócio, também respeita a dimensão da competição futebolística. Não muito, mas respeita.

Afinal, se por um lado nas quatro semanas de embates em campos tedescos serão disputados três Grandes Prêmios, por outro ela mudou a agenda de atividades do Grande Prêmio da Grã Bretanha -realizado neste final de semana- no último instante porque alguém lembrou que o “English Team” –único representante bretão nesta edição da Copa- estrearia na competição justamente no horário em que se realizaria o treino de classificação para o grid de largada.

E assim, até que os organizadores não anunciaram que a partida contra a seleção paraguaia seria transmitida pelos telões de Silverstone, os ingleses estavam em dúvida se iam à pista ou se ficavam em casa torcendo pela seleção de seu país –enquanto isso, os ingressos iam mofando nas bilheterias.

Outro fator que poderia desagradar àqueles que se interessam pelo bussiness –exposição de imagem de marcas na mídia- é a redução da audiência das atividades de pista que concorreriam com jogos da Copa. Afinal, algumas televisões -como por exemplo a brasileira Globo-, seriam obrigadas a escolher entre transmitir a corrida ou o jogo de futebol. Como as atividades de pista poderiam ser antecipadas sem maiores conseqüências, então assim foi feito.

Ou seja, a Fórmula 1 é feita de gente que até pode gostar de futebol, e que até gosta de torcer pelos selecionados de seus paises durante a Copa do Mundo. Mas não rasgam nota de cem dólares –a não ser que, com o milagre da duplicação, os cem dólares iniciais se tornem duzentos.

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