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30/07/2010 / Marcio Kohara

Porque o Clube das Piranhas tem alguma razão no caso Hockenheim/Massa

Luca di Montezemolo fala sobre a hipocrisia da cobertura da imprensa sobre o assunto. Bernie Ecclestone aparece concordando com o que foi feito em Hockenheim pela Ferrari. A equipe toda segue negando o óbvio, sobre a ordem de equipe. Vozes aparecem concordando ou discordando do que foi feito pela Ferrari em Hockenheim. Pois bem. Até aí, nenhuma novidade.

Mas tem um problema. O problema é que o artigo 39.1 do regulamento de competições continua em vigor e a manobra de Hockenheim será um dos assuntos em pauta no Conselho Mundial na próxima reunião. Como já disse num post anterior , o artigo 39.1 é o que proíbe ordens de equipe. Justo? Relativamente. A ideia da lei é impedir que fraudes sejam realizadas com o intuito de beneficiar A ou B numa briga pelo título e fazer com que uma equipe eleja um primeiro piloto com critérios que não os esportivos -e o segundo piloto seja obrigado a trabalhar como gregário* do capitão* da equipe desde o começo do campeonato.

Só que, se formos analisar friamente, o que tá escrito na regra é letra morta. Não tem muito valor -acho que são mais ou menos como as leis que não pegam e existem aos montes por aqui. Tanto que em momentos decisivos a tal regra é esquecida de forma conveniente e fica tudo por isso mesmo. Quem não se lembra da etapa alemã, na mesma Hockenheim, de 2008, quando Heikki Kovalainen simplesmente deu passagem para Lewis Hamilton. Ou os GPs do Brasil 2007 e China 2008, quando a troca de posições entre Kimi Raikkonen e Felipe Massa foi tão clara -ou mais- quanto a do último domingo. Ou a troca de posições entre Giancarlo Fisichella e Fernando Alonso no GP da Turquia de 2005. Enfim, em todos estes momentos aconteceram trocas de posições e nem por isso houve toda esta grita. Por este ponto de vista, Bernie Ecclestone e Luca di Montezemolo tem a sua razão.

Claro, os comissários da FIA julgaram que a troca de posições da Ferrari foi errada do ponto de vista desportivo, tanto que, a equipe foi considerada culpada por infringir os artigos 39.1 e o 151c (conduta fraudulenta), recebeu a pena máxima dos comissários (100mil Euros de multa) e ainda por cima o caso será estudado pelo Conselho Mundial. E, aqui entre nós, a manobra foi acintosa -ainda mais se considerarmos a forma com que Rob Smedley falou com Felipe. Segundo a reportagem da Tatiana Cunha da Folha de hoje (sexta), Massa tentou enrolar na tomada da decisão, tanto que o “Fer-nan-do-é-mais-rá-pi-do-que-vo-cê,-en-ten-deu-a-men-sa-gem,-Felipe” teria sido a terceira “sugestão” vinda do comando da equipe para que o brasileiro deixasse o espanhol passar. Por tudo isso, e pela reação dissimulada de Alonso depois da corrida, na conversa divulgada pela transmissão, perguntando sobre um problema no carro de Felipe, acredito que a manobra tenha sido premeditada, acertada entre Alonso e o comando da equipe. E, por isso mesmo, acho que a Ferrari mereça mesmo uma punição maior, como uma desclassificação dupla do GP.

Não que a minha opinião seja muito relevante, e inclusive já teve gente sugerindo isso antes (James Allen, em seu ótimo blog). Mas o que eu sugeriria neste primeiro momento era simplesmente revogar o artigo 39.1 a partir de agora. Afinal, o efeito prático dela é nenhum, já que é aplicada em alguns momentos -como o atual-, mas não é aplicado em outros. Se está no regulamento como um evento ilegal, todos os exemplos citados anteriormente deveriam ter sido, pelo menos, investigados.

Por outro lado, a FIA poderia simplesmente regulamentar o jogo de equipe, dizendo exatamente quando e como este tipo de decisão da equipe passa a ser tolerada. Por exemplo, sugerir uma janela em que a equipe pode trabalhar pelo piloto principal seria uma boa forma de adaptar as regras ao que acontece na pista e julgar os casos extremos. Por exemplo, a partir do momento em que um piloto tenha chances matemáticas de título e outro integrante da equipe não -como sugerido pelo próprio Allen- é uma janela que pode ser aceita por consenso. Restringir o jogo de equipe a troca de posições, bloqueio legal a adversários e “fornecimento de vácuo”, prevendo graves punições -como até mesmo o banimento- aos que se envolverem a sugestão por parte da equipe que um piloto sofra um acidente para favorecer a estratégia de outro -como aconteceu no caso Cingapura/Piquet/Briatore.

Por fim, também gostaria que fosse exigida de cada equipe a divulgação, desde o começo da temporada, de quais seriam as suas políticas para capitães* e gregários*, sem que fossem permitidas mudanças no meio do campeonato. Ou seja, se o piloto A é simplesmente o representante da equipe na briga pelo título desde o começo do ano, se a equipe definirá isso no decorrer da temporada e quando fará isso.

Pelo menos jogar às claras é uma forma de deixar a disputa mais esportiva e menos obscura para a maior parte dos espectadores. E, pelo menos assim a gente saberá quando as equipes poderão tomar estas atitudes ou não. Melhor uma lei que não seja a ideal, mas que é aplicada, do que uma que está lá apenas para dar satisfação a outrem.

Claro que toda esta indignação não estaria acontecendo se o caso envolvesse uma equipe inglesa, como a Mclaren. Tanto que o caso Kovalainen/Hockenheim foi rapidamente esquecido -porque a imprensa italiana não é tão influente quanto a inglesa. Mas também é hora de acabarmos com essa hipocrisia de que apenas a Ferrari faz jogo de equipe e que todas as outras equipes são santas. Isso não existe. Não é a toa que o apelido de Piranha Club cai tão bem ao conjunto de chefes de equipes da categoria.

OBS: Piranha Club, na verdade, é uma famosa tirinha norte-americana, desenhada pelo norte-americano Bud Grace. O termo teria sido utilizado pela primeira vez no mundo do automobilismo quando, ao ter Michael Schumacher roubado de sua equipe por Flavio Briatore, Eddie Jordan foi saudado por Ron Dennis com um irônico “bem vindo ao Clube das Piranhas”. O nome batizou um livro, talvez o melhor livro sobre bastidores da categoria, “The Piranha Club: Power and Influence in Formula One” (Timothy Collings, 2001). O irônico disso tudo… é ver que este livro é publicado pela Virgin Books. Richard Branson deve ter tido um curso intensivo lendo este livro… rs.

*: Termos do ciclismo, esporte em que o jogo de equipe é permitido e aplicado amplamente, fazendo parte da cultura do esporte.

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