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02/10/2010 / Marcio Kohara

Felipe, Luca e a realpolitik da Scuderia

Ferrari pede para que Massa faça o trabalho sujo. Manchete dizendo isso foi vista nos diversos sites especializados do mundo, citando uma declaração de Luca di Montezemolo à voz da Ferrari, a Gazzetta dello Sport:

“Eu espero pelo Felipe com grande perseverança nas últimas quatro corridas. Eu quero um Massa forte para tirar os pontos de rivais. Em Cingapura, ele teve azar, mas estava em condições de vencer. Aqueles que correm pela Ferrari não correm por si mesmos, mas pelas cores da Ferrari. O que quer correr por si só vai ter que encarar a sua equipe”.

Não é novidade. Só serve para confirmar a impressão que o Col sempre teve do eposódio. É óbvio que em algum momento da temporada a Ferrari definiu que um de seus pilotos partiria para a briga pelo título e o outro, atrás na tabela de pontuação, teria que ajudá-lo. Acredito que este momento tenha sido no corte do meio da temporada, quando Alonso já tinha boa vantagem na tabela sobre Felipe. Depois da pizza de Paris, que o Conselho Mundial ratificou o jogo de equipe, ficou mais fácil dar este tipo de declaração. Mas é uma situação que já vinha desde o GP da Alemanha. E, no fim das contas, a decisão se mostra acertada se observarmos que Alonso entrou de vez na briga pelo título -e pode conquistá-lo justamente com a diferença de sete pontos que significa a diferença entre a vitória e o segundo lugar de Hockenheim.

A declaração do mandatário ferrarista só ilustra aquilo que todos sabiam, os iludidos não queriam aceitar e a Ferrari não dizia pelo receio de ser punida na reunião do Conselho. A visão da Ferrari é que o importante é a equipe e não os seus membros. Existe uma política meritocrática na equipe e os incomodados que se retirem. Entregar a vitória para um piloto melhor colocado no campeonato se o outro estiver na briga pelo título é obrigação do escudeiro de ocasião, da mesma forma que entregar o segundo lugar, o quinto e o décimo. E tem que correr bem, para ajudar a tirar pontos dos adversários. É justo? Se observarmos pela visão corporativa da coisa, sim. É a política real, maquiavélicamente falando. A realpolitik.

Pessoalmente acho que o corte foi muito cedo e a regulamentação ajudaria a coibir este tipo de coisa, mas cada um sabe onde o calo aperta, não é mesmo? Se a FIA acha que tá bom, tá bom. Quem sou eu para proferir palavras em contrário? Mas não sou a favor. Se a turma do Conselho fizer o obséquio de explicar o porque do episódio de A1Ring em 2002 ser diferente do de Hockenheim em 2010 e explicarem a diferença de tratamento entre os dois casos, agradeceria.

Quanto a Massa, para este ano, resta ajudar Alonso. É uma situação definitiva para todo o contrato do brasileiro? Me parece que não, como não foi quando Kimi Raikkonen conquistou o título em 2007 com Massa entregando a vitória no GP do Brasil e em 2008 o então campeão mundial teve que trabalhar para Massa a partir de um certo momento do campeonato. Neste ponto, apesar dos pesares, a Ferrari foi justa mesmo pagando cinco vezes mais para o finlandês, apesar do que foi falado na época -e não dá para comparar com a era Schumacher porque o alemão nunca deu chances para Barrichello. Para o ano que vem, Felipe tem que fazer o possível para superar o espanhol na tabela de pontuação e seguir vivo na briga pelo título -o que não aconteceu neste ano. Me parece que é nisso que o brasileiro acredita, e seria a coisa certa a fazer. Se vai conseguir é uma outra história.

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