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21/11/2010 / Marcio Kohara

O Dakar longe de casa por mais tempo

Por que o Dakar não volta para a sua casa, a Mãe África? Já vamos para o quarto ano sem que os pilotos rasguem o continente africano nesta que é uma das grandes aventuras humanas da atualidade. Em 2008 o rali foi cancelado poucos dias antes da largada em Lisboa (Portugal) em decorrência da ameaça de ataques terroristas -depois do assassinato de quatro de franceses na Mauritânia ocorrido no Natal daquele ano. Depois disso, não voltou mais a ser realizado lá.

Claro que o mundo gira, a Luzitânia roda e o rali mais perigoso do mundo tem uma versão sul-americana -disputada entre os territórios da Argentina e do Chile- que substitui com surpreendente competência a versão africana. Mas a versão africana tem uma aura especial que dá um toque a mais à aventura -talvez pela própria sensação de vazio de tudo que não é tão forte em nosso continente. Existe a sensação de que o mundo só olha para a Mãe África quando a coisa aperta por lá.

Existem críticas ao evento como um todo. A organização invariavelmente ruim dos franceses da ASO, por exemplo, é uma delas -apesar de ter melhorado muito conforme o evento tem se desenvolvido. Mas também existem questões políticas no evento quando é realizado na África. A maior reclamação está na falta de retorno que o evento trás aos locais, dando a sensação que os mauricinhos só vão lá para realizar as suas aventuras -da mesma forma que, até há algumas décadas atrás, os brancos partiam para o continente africano para realizar as caçadas em busca dos grandes felinos ou paquidermes. Não deixa de, pelo menos, parecer verdade.

Se pudessem escolher, os franceses voltariam a realizar o Dakar na África já no próximo ano. O problema é que eventos como os que tem assolado o território da Saara Ocidental não dão a impressão de que o rali vá voltar tão cedo para casa. Acho que vale contar a história, um tanto escanteada pela mídia brasileira. Saara Ocidental é um antigo protetorado espanhol que hoje é considerado um território sem governo próprio pela ONU. Desde a saída dos espanhóis, é palco de disputas entre governo do Marrocos e um grupo que luta pela independência do país -que seria bancado pelo governo da Argélia, também interessado no território. As duas partes negociam via ONU, mas de tempos em tempos a temperatura esquenta, como aconteceu na última semana, quanto um ataque de militares marroquinos a um acampamento que deixou 13 mortos.

E esta situação não é isolada. A Mauritânia também não é um território que desfrute de uma situação estável. A antiga colônia francesa, quando houve o cancelamento do Dakar em 2008, vivia uma situação politica complicada que acabou culminando num golpe militar que derrubou um governo eleito democraticamente. E a Mauritânia -tradicional ponto de passagem da caravana do Dakar rumo ao Senegal- não é uma exceção. Casos como os de Guiné, que está com a sua Constituição suspensa desde o final de 2008, não são novidade nem surpreendem neste barril de pólvora que se tornou a África saariana. Claro, não são todos os vizinhos do Senegal (país cuja capital é Dacar, cidade que empresta o nome ao evento e, com a especial que dá a volta ao belo Lago Rosa, é o tradicional ponto de chegada da aventura) que vivem situação conflituosa. O próprio Senegal, por exemplo, tem situação tranquila, da mesma forma que os territórios de Argélia, Mali e Marrocos. Mas a situação nervosa de seus vizinhos não deixa a situação tranquila para que se realize um evento internacional, já que existe o risco de que os participantes do evento podem ser atacados. Afinal, para os grupos locais, ataques a eventos mundiais como o Dakar podem servir para dar visibilidade -e até legitimidade- aos seus movimentos.

Por outro lado, a América do Sul parece cada vez mais a casa do Dakar. E existem planos de expansão da brincadeira aqui em terras sul-americanas nos próximos anos. Por exemplo, uma largada no Brasil a partir de 2012 -visto que é o centro do mundo esportivo nos próximos anos, com a realização de Copa do Mundo de futebol e Jogos Olímpicos- não seria surpresa, e uma largada na Baía da Guanabara, por exemplo, seria uma aposta quase certa. Claro que esta expansão traria algumas etapas para terra brasilis -hoje dividida numa média de 70% em território argentino, o restante no chileno. Uma expansão para a Bolívia também poderia ser considerada. Seria uma boa forma de ampliar o número de parceiros para pagar a conta da brincadeira -e também ampliar o alcance do rali, hoje bem restrito aos países mais setentrionais do continente. Porque, pelo que parece, o hóspede vai ficar por aqui por bastante tempo.

iumagens: dakar.com e ap/bbc.co.uk

One Comment

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  1. Ron Groo / nov 22 2010 4:07 pm

    Sabe, eu até gosto desta configuração do Dakar em terras sul americanas, mas poderiam ao menos mudar o nome. Não?

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