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05/02/2011 / Marcio Kohara

A Bolsa é o tiro curvo da pistola do tio Frank?

Pois bem. Todo mundo apresentou seus carros. Mas faltou uma equipe. É a Williams, que apresentou o seu projeto na terça feira junto com mais três equipes. ‘Você faz isso porque não gosta da Williams’… ‘Tem raiva do tio Frank porque ele é independente e legal e você quer ver as montadoras mandando na categoria’…  Calma, amigo, não é isso. É que na série ‘Com que roupa…’ daqui do Col adotamos a regra de só apresentar os carros definitivos que correrão na temporada. Como a Williams está com uma pintura intermediária, apesar de estar testando o carro que será usando na temporada 2011, não fiz a apresentação dela na série. Faremos assim que o tio Frank abrir a mão e resolver fazer uma festinha decente. Pode até ter mesas de plástico brancas e tubaínas em garrafas 2 litros servidas em copinhos descartáveis na cerimônia, mas que apresente a tal da pintura definitiva. Isso ele ainda não decidiu quando vai ser. Aguardaremos quando será, então. Mas não é por isso que não vamos falar das flores. A Williams também tem um assunto interessante para ser tratado aqui.

Como já escrevi aqui certa vez, Frank Williams tem guardado em seu arsenal uma pistola de tiros curvos, que acerta os seus alvos mesmo que eles estejam na rua transversal. E, que, de tempos em tempos, ele a utiliza para tentar sobreviver neste mundo inóspito da Fórmula 1 como uma equipe independente. Quando ainda ninguém enxerga o caminho do futuro, tio Frank dá o seu tiro e acerta o alvo. Até a década de 1990, tio Frank deitou e rolou sobre a categoria com este modus operandi, mas depois a vida complicou e a tal pistola começou a falhar. Mas, mais uma vez, tio Frank Williams saca a sua pistola e tenta uma grande jogada.

Agora a cartada será uma aposta no chamado Senhor Mercado. Tio Frank disse que irá para a Bolsa para vender um pedaço de sua equipe -e tentar levantar uma grana. Um lote equivalente a 27,39% das ações do grupo que engloba a equipe será oferecido na Bolsa de Valores de Frankfurt, a maior da Europa. Se espera que a Oferta Pública Inicial (IPO, no jargão técnico) seja realizada entre os dias 9 e 28 de fevereiro e a venda para o publico se inicie se inicie no dia 3 de março. O valor nominal da ação é de cinco pences -0,05 libras-, mas, como sempre acontece em ações negociadas em Bolsa, o mercado definirá o valor real de cada ação.

Claro, quando se pensa neste tipo de operação, se pensa em empresas como o Google e algumas empresas brasileiras, que amealharam uma paulada de dinheiro nesta brincadeira e assim forniram os bolsos de seus respectivos proprietários. Se for exatamente isso o que vai acontecer com a Williams, ótimo. As próximas 20 gerações da família Williams estarão com o futuro garantido e a equipe poderá se eternizar. Mas é isso o que acontecerá? Rios de dinheiro para a Williams, que assim volta a ser uma das big players da Fórmula 1? É a torcida de muitos, que tem na equipe uma das mais simpáticas da categoria -que é uma das últimas representantes das ‘garageiras’, que marcaram época na categoria. Mas não é tão simples assim. A entrada na Bolsa tem seus riscos e existem empresas que quebram a cara nestas operações, perdendo valor de mercado. Por isso mesmo, teremos que esperar, pelo menos, até o fim do mês (ou mais) para saber. Alguns fatores são nebulosos e tem que ser considerados para fazermos uma análise justa e sincera sobre a situação.

O ambiente inóspito que a equipe vive é um complicador. Afinal, até onde sabemos, uma equipe de Fórmula 1 em si não dá lucro. Pelo contrário. Se pensarmos apenas na questão ‘despesa contra receitas’ de uma equipe de Fórmula 1, é claro que a parte de despesas é bem alta e a parte de receitas -considerando apenas premiação- não tanto. Claro, existem os aportes de patrocínios que fazem com que a empresa sobreviva, mas isso é o comum e assim as equipes vivem há bastante tempo -ainda mais na Fórmula 1 perdulária de Bernie Ecclestone. Mas o baque sofrido na última temporada, com a perda de inúmeras patrocinadoras, não deixou a empresa mais frágil? A entrada de um piloto pagante não interfere na maneira como o mercado vê a equipe? Será que os investidores não ficarão mais arredios ao analisar estes detalhes?

Existe também a noção que a Williams é um grupo e faz mais do que só correr na F1. A empresa de desenvolvimento de soluções de engenharia tem reputação e clientes, e faz chassis para a Fórmula 2, por exemplo. Mas a galinha dos ovos de ouro do grupo é a presença na Fórmula 1. Como será que os outros departamentos interferem no balanço da empresa? É uma boa pergunta.

Outra boa pergunta seria saber qual é, exatamente, a migalha que o tio Bernie repassa para as equipes de Fórmula 1. Hoje em dia obter esta resposta é impossível, já que todas as equipes tem capital fechado. Mas, estando na Bolsa, estas questões devem ser respondidas -já que um dos preceitos de uma empresa na Bolsa é a transparência com que trata os seus dados, sob o risco de atrair desconfiança e desvalorizar as suas ações se isso não acontecer. Publicação de balanços, publicidade quanto aos montantes movimentados… Se a Williams fizer isso de forma transparente -como será obrigada para atrair a confiança de seus novos sócios- será bem interessante.

Algo que também gera dúvidas é o estilo peculiar de gerenciamento de talentos que a equipe tem. Frank Williams é conhecido por sua mão fechada na hora de recompensar talentos. Nico Hulkenberg na última temporada é um exemplo disso. Foi dispensado depois de pedir aumento de salário para seguir na equipe. Mas a equipe tem tradição em dificultar negociações com talentos que pedem aumento nos seus vencimentos -lembre-se de Adrian Newey, Juan Pablo Montoya, Ralf Schumacher, Damon Hill, Nigel Mansell,… Todos os citados deixaram a equipe depois de que as negociações acabaram se complicando e acabaram saindo da equipe. Certamente este tipo de conduta numa negociação não será bem vista pelo mercado a partir de agora.

No fim das contas, a entrada da Williams pode ser uma espada de dois legumes, como diria Vicente Matheus -lendário ex-presidente do Corinthians. Mas tomara que dê certo. Seria uma alternativa interessante para mudar a cara da Fórmula 1, ainda dependente dos investimentos externos de magnatas dispostos a queimar algum dinheiro em algo que os entretém. E também pode a mudar a vida e a história da Williams, uma equipe em decadência na categoria. Seria algo bem interessante.

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One Comment

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  1. Ron Groo / fev 6 2011 7:35 pm

    Pelo sim, pelo não… Vamos juntar uma grana e comprar um lote de ações.

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