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10/07/2011 / Marcio Kohara

O lado positivo de uma página negra do jornalismo

Não é muito do vagabundo ocupado escriba do Col de Turini escrever um texto em um final de semana. Quanto mais dois. É mais comum o escriba viver semanas parlamentares, publicando textos burocráticos de terça a quinta-feiras -apesar da remuneração não ser condizente com a nababesca vida parlamentar. Mas esta oportunidade exige uma lembrança, então vamos gastar alguns bites para escrever alguma coisa.

Neste domingo o tablóide dominical ‘News of the World’ publica a sua última edição -cuja capa, roubada surrupiada copiada reproduzida da Wikipedia, você pode ver ao lado. Pelo que se pode ler (aqui), é uma edição sentimentalóide, rememorativa, onde o tablóide relembra os seus 168 anos de existência, tentando se colocar como tendo sido útil para a sociedade inglesa. E, para mostrar que o NOTW é bem legal, ainda deixa claro que a renda obtida será distribuída para três entidades de caridade.

Claro que chama a atenção um jornal morrer assim, ainda sendo um dos mais vendidos do mundo -tem uma tiragem de 2,5 milhões e, neste domingo, a ideia era dobrar a tiragem para 5 milhões de jornais. Parece uma quantidade absurda, ainda mais para o mercado brasileiro -que chegou ao pico de 1,5 milhão de unidades, mas o mais vendido hoje não atinge 300 mil-, mas o fato é que parece pouco pela quantidade que já chegou a vender. Em 1950 o NOTW chegou a ter a assombrosa tiragem de 9 milhões de cópias.

Enfim, o jornal era um dos mais antigos em circulação do mundo e teve uma posição importante na expansão do grupo do magnata australiano da mídia Rupert Murdoch. Em 1968, a publicação foi a primeira aquisição dele fora da Austrália -e a primeira amostra de que o mundo da imprensa, tradicionalmente uma atividade provinciana, sofreria uma revolução com a sua presença. O grupo continuou a se expandir, adquiriu jornais como o inglês The Times e o estúdio norte-americano Fox. E hoje é o maior grupo de comunicações do mundo, tendo em seu portfólio marcas como Wall Street Journal, The Sun e a quarta maior rede de televisões dos EUA, a Fox.

Voltando a vaca fria, claro, o fim do tablóide é justificado. Claro que os fãs das famosas moças despudoradas da página 3 irão lamentar, mas… Bom, o fato é que o tipo odioso de jornalismo que os caras fazem está longe de ser daqueles que orgulham a classe -pelo contrário. Quando o sensacionalismo não causava problemas a ninguém, ok, vida que segue. O problema foi quando este limite foi ultrapassado -e tem sido cada vez mais ultrapassado nos últimos tempos. Tanto que chegou ao ponto da própria população inglesa se voltar contra a falta de limites no trabalho feito por estes veículos. O ‘News of the World’ está sendo fechado por causa do escândalo de interceptações telefônicas -o popular grampo. Alguns ricos e famosos ingleses foram grampeados e tiveram suas conversas expostas nas páginas do tablóide -gente do naipe da atriz Sienna Miller, do técnico Alex Ferguson e do político John Prescott.

Alguns envolvidos já forma presos, inclusive jornalistas (sendo que um deles, Andy Coulson, era chefe de comunicações do gabinete do Primeiro Ministro David Cameron), mas a investigação em curso mostrou que esta era uma prática comum do tablóide. De certa forma, o suicídio público é uma forma de admissão de que o ‘NOTW’ tem culpa no cartório -e a doação da renda vem mais do fato de uma tentativa de se livrar a própria cara -de uma publicação que está sofrendo boicote dos anunciantes- do que exatamente um arroubo de bondade do capo Murdoch. Claro que existem teorias da conspiração que dizem que Murdoch mandou fechar o tablóide para destruir provas e não permitir a investigação completa da justiça inglesa. Mas até aí, é bem difícil de provar até que realmente aconteça.

Claro, este é um blog de automobilismo e por isso mesmo vou ligar os dois assuntos. Mas não estou a fim de citar a não-história de que Rupert Murdoch compraria a Fórmula 1, porque isso não aconteceu e não liga a nada. Então vale a pena lembrar que um dos escândalos mais famosos protagonizados pelo ‘News of the World’, que pode ter salvo a história do automobilismo. Afinal, o escândalo do vídeo numa sessão sado-masoquista com temática nazista que culminou na derrocada de Max Mosley surgiu graças a este tablóide, que publicou a história da sessão de luxúria vivida pelo tarado inglês -diz-se que foi graças a Ron Dennis e Flavio Briatore.

As cenas bizarras de Mosley de cueca branca armado com um prosaico chicotinho, golpeando moças vestidas de forma pouco púdica -eu diria que não dá para ir à missa com aquelas vestimentas- chocaram o mundo e selaram a sua sorte. Claro, depois Mosley botou o tablóide no pelourinho no pau na justiça, devido às acusações inconsistentes de que ele era nazista. Esse é um calcanhar de aquiles da trajetória de Max, que tem um passado ligado ao nazismo, já que é filho daquele que seria o führer inglês caso Hitler vencesse a guerra e foi membro ativo da juventude nazista inglesa. Mas até aí a sua imagem já tinha ido para o vinagre e só sobrou a ele tentar emplacar a vingança contra os responsáveis pelo vazamento da história -o que aconteceu com o escândalo da mentira de Lewis Hamilton em 2009 e o escândalo da batida de Nelson Nelsinho Piquet divulgado em meados do mesmo ano.

Mas o ‘News of the World’ salvou a história do automobilismo? Bom, não exageremos. Mas o fato é que, sem Mosley no comando, assumiu Jean Todt, que, apesar de estar sendo sabotado pelo baixinho Bernie Ecclestone no comando da F1, tem feito um ótimo trabalho na condução da FIA como entidade máxima do automobilismo e não apenas da Fórmula 1. Neste ponto, a queda de Mosley foi um ótimo sinal, abrindo o leque para os que gostam do esporte a motor mas não querem viver apenas da Fórmula 1. Pena que tenha acontecido desta forma.

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