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15/09/2011 / Marcio Kohara

Brasil! Mostra tua cara…

Quero ver quem paga… Pra gente ficar assim… (Cazuza)

Primeiro, um aviso. O Col de Turini não é um blog dado a ativismos politicos. Não faz campanha pra ninguém, nem mesmo para o piloto japonês da vez, já que a última moda é fazer parte do hype pró Kamui Kobayashi (apesar de sempre ter achado que Kamui, e não Kazuki Nakajima, deveria ter ganho uma oportunidade, seja na Toyota, seja na própria Williams, seja para qual equipe os nipo-alemães forneceram o seu propulsor. Enfim… Vida que segue). Talvez publique mais sobre WRC aqui do que deveria, mas isso acontece porque nenhum veículo de imprensa aqui no nosso glorioso bananal dá muita atenção para a categoria -apenas para a cobertura capenga da Autosport inglesa. De toda a forma, um barulhozinho de vez em quando não faz mal para ninguém.

Eis que a Federação Internacional de Motociclismo, a popular FIM, deve anunciar na próxima semana que a Argentina deverá receber uma etapa do Campeonato Mundial de Motovelocidade, o MotoGP, a partir de 2013. O Governo Federal da República Argentina, chefiado pela senhora Cristina Kirschner, bancará a taxa da organização da etapa junto à Dorna e deve realizar a prova no circuito de Termas do Rio Hondo, em Santiago del Estero -norte do país.

Nas redes sociais, entre os fãs do esporte a motor brasileiros, surgiu uma polêmica, que pode ser resumida na simples pergunta: O que nós, brasileiros, estamos fazendo de errado? Afinal de contas, a Argentina organiza etapas dos Mundiais de Rali e FIA-GT, além de receber também o Rali Dakar em seu território. Enquanto isso, por aqui recebemos a Fórmula 1, Indy e o WTCC, mas perdemos FIA GT, Le Mans Series, MotoGP, Superliga e Mundial de Cross Country nos últimos anos. E, nos últimos anos, não temos atraído mais nenhum tipo de evento -e quando atraímos, é o vexame da Superliga, que deixou pra lá depois que viu que Goiânia não ia bancar a palavra dada de que teria o autódromo ponto até o final do ano. Uma situação bem distinta à dos vecinos.

E isso ainda levando em conta que enquanto muitos organizadores de eventos do esporte a motor estão mais facinhos que maria-chuteira no vestiário da seleção brasileira de futebol para ter uma representação por aqui -claro, de olho no crescimento econômico do país nos últimos anos. Dando nome aos bois, o Rally Dakar, o Mundial de Endurance já deixaram bem claro que, se a entidade brasileira quisesse, teria uma etapa dos seus respeitáveis certames em território nacional. Bastaria falar que sim, assinar o contrato e pagar a conta. Entraria no calendário quase sem pedir licença.

Considerando que se trata de um país que vive uma situação econômica mais desfavorável do que a de nosso país -a Argentina não é um país emergente dos BRICS e, apesar de visto a sua economia crescer, não foi no ritmo de nossa economia-, o que tem faltado para nós?

Acredito que o fator principal desta apatia é a falta de uma cabeça pensante e de um projeto de desenvolvimento de longo prazo para o automobilismo nacional. Claro que é muito fácil chegar e tirar esta conclusão. Mas o fato é que a entidade nacional diretiva do motociclismo vive uma crise de comando -com impeachment de diretoria e todo o mais- e a do automobilismo é absurdamente inoperante. Se estas entidades funcionassem, o cenário do esporte a motor nacional -seja o de base, seja o profissional- não seria a nulidade que é hoje. Fato.

Uma das utilidades de uma entidade como esta é fazer lobby e divulgar a importancia do esporte para os políticos. Por exemplo, explicar para os gringos que o Brasil não se resume a São Paulo e Rio de Janeiro -existe um território enorme e quase inexplorado no interior do país. Cidades no interior de diversos estados, que costumam organizar campeonatos de corridas do tipo Força Livre, correndo com Opalas equipados com motores de Corvettes, seus tratores, em pistas de terra batida, sem grande infra-estrutura. Locais meio distantes dos grandes centros, que tem grande potencial e dinheiro também.

Outra utilidade de uma confederação é explicar para os nacionais que pode se fazer um bom trabalho sem gastar toneladas de dinheiro. Por exemplo, uma etapa do Dakar em Campo Grande, por exemplo, certamente não é o dos sonhos para a ASO -que imaginaria uma largada no Rio, por exemplo. Mas se encaixa como uma luva na divulgação até turística da cidade, do estado, do Pantanal que fica ali do lado. E imagino que não seria nada de outro mundo para o Governo Local bancar a passagem do Dakar por lá. Se uma largada/chegada do Dakar (com cinco etapas) fica algo em torno de US$5mi (valor que o Peru estaria pagando para 2012), imagino que duas ou três etapas em território nacional custariam menos. Mas e a CBA pra fazer este tipo de consultoria, de explanação sobre os benefícios que poderiam ter nesta nova situação? Claro que o Governador prefere tentar atrair uma Copa do Mundo de futebol. Agora, não deu. Não precisa fazer o estádio de R$250mi e 40 mil lugares para mofar no futuro, já que o futebol local inexiste mesmo. Porque não tentar isso? Divulga mais a cidade para o mundo do que receber os treinos do Togo na Copa.

Por outro lado, gastar muito e mal é o modo de vida dos políticos brasileiros. Você sabia que o circuito de Losail, construido há 6 anos e que pode receber a F1, custou US$50 mi -mesmo com iluminação para provas noturnas? Para se ter uma ideia do que isso significa, Goiânia fará um circuito de R$150mi a R$200 mi (US$85mi a US$120mi), não terá iluminação e não será capaz de receber a F1. Um outro exemplo é o próprio circuito de Santiago del Estero, construído há quatro anos, custou US$ 10mi e precisa de poucas reformas para receber uma MotoGP. Por R$15mi, tem político que não consegue recapear três ruas… Falta grana pra propina, acho.

Agora, voltando à vaca fria, é para fazer essa ponte unindo as duas pontas que servem essas entidades. Não é só para vender carteirinha a R$800 para cada piloto federado e festinha de meio milhão de reais todo ano, sem fazer nada pelo esporte em si. Agora, vai explicar isso pra eles que tão lá dentro. O modus operandi deles deve ser o bom e velho lema público brasileiro: ‘O que é meu é meu, o que é seu é nosso, e o que é da entidade não é de ninguém -e se não é de ninguém é meu porque eu vi primeiro’. E assim, a galinha dos ovos de ouro vai parar de gerar frutos em breve… Seria uma pena.

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