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18/10/2011 / Marcio Kohara

A crítica pela crítica e o risco da repetição da história como farsa

A posição de crítico não é fácil, apesar de todos terem certeza que é. Não é só sair vomitando regras e ditando verdades por aí, é evidente, apesar de muita gente ter certeza que é só isso. Falar que ‘x’ é seleção, que o mesmo ‘x’ é um grosso dois minutos depois… Isso é fácil, mas não é o que um analista deveria fazer. Pelo menos os críticos responsáveis -sim, eles existem- analisam os fatores, buscam se colocar em todas as posições para depois emitir alguma posição. Que pode, e até deve, não agradar a todos, porque se nem Jesus foi unanimidade, não vai ser um crítico que vai ser. Mas, pelo menos, que seja uma posição sensata e que faça algum sentido.

Por isso, não sou muito a favor de escrever opiniões no calor dos acontecimentos, e por isso mesmo o Col é ‘gelado’, sem grandes arroubos de instantaneidade. Para acompanhar isso, tem diversos portais de notícia que se propõem a isso. E, claro, no rastro de todo acontecimento absurdo, sempre vão aparecer os sensacionalistas ou os ‘attention whores‘* tentando vender teorias absurdas apenas para ganhar cliques e gerar polêmica.

*(a tradução literal para ‘attention whores‘ seria ‘putas aparecidas’. Não lembrei de um termo em português, poderia ser algo como ‘Maria holofote’, mas não lembro se é usado correntemente. A ideia é essa mesma. Gente que faz de tudo para aparecer)

Claro que nesta turbulência também aparecem os CSI de esquina, como todo motorista brasileiro parece que é -ou o amigo leitor nunca esteve num congestionamento depois de um acidente qualquer numa rua brasileira? Gente que propôe soluções absurdas, apocalipticas, depois de cada acidente como esse. E, claro, não podem faltar as retrospectivas emocionais, como os momentos felizes, tristes, últimos momentos, contas não pagas, reuniões de condomínio não atendidos, ajudar velhinhas a atravessar a rua, visitas ao urologista e tudo o mais. Claro, faz parte até da curiosidade mórbida do ser humano. Mas é dispensável.

Pois bem, tudo isso para começar a tratar da morte de Dan Wheldon. ‘Pô, mas você só escreve sobre Indy quando tem desgraça, nas 500 Milhas ou quando a Band não dá atenção?’ Infelizmente, a categoria ianque não tem muito peso no cenário mundial… Apesar dos brasileiros darem bastante atenção para a categoria norte-americana por causa da longa tradição de pilotos brasileiros por lá e ‘por ter brasilero na frente’ -o que não é mais uma verdade-, a Indy não é exatamente uma categoria relevante no cenário mundial. Tem as 500 Milhas de Indianápolis, que é um evento meio arrastado em sua preparação, meio brega, mas que merece todo o destaque porque é uma das maiores corridas de carros do mundo e porque mantem as suas tradições. Mas a Indy, hoje, se resume a um pouco mais do que a corrida.

Claro que isso não justifica que a categoria mereça ser olimpicamente ignorada -não é o que eu faço, mas é o que a nave-mãe, na pessoa de seu entretainer chefe, ou editor chefe, diz com todas as palavras-, ou se falar dela apenas no sentido negativo, se aproveitando do momento, como fez o outro representante da Venus Platinada em seu programa, mas o oposto também não é justificado. Dar o status de segunda categoria, ou até a primeira, como faz a detentora dos direitos, é justamente o contrário, e mostra que, mais do que cobrir esportes, o que os caras tem é inveja da Globo. E, claro, por outro lado, não justifica não transmitir as provas nem na TV fechada do grupo, como já havia comentado por aqui na ocasião da etapa de Baltimore… Enfim, bola pra frente.

Voltando ao assunto. Wheldon parecia ser boa gente, pelos relatos que pululam por aí. Claro que a morte dá uma turbinada no status do sujeito, mas é o que parece ser verdade. Mas certamente conhecia os riscos da brincadeira perigosa e sabia que a coisa poderia acabar assim. Certamente morreu fazendo o que gostava. Conhecia os riscos e os assumiu. Claro, não realizou todos os sonhos de criança, mas certa vez abriu mão do maior sonho -de correr na Fórmula 1- para seguir sua carreira sedimentada no automobilismo norte-americano -como conta Daniel Medici em seu Cadernos do Automobilismo. Enfim. Pesames para a família e para os amigos, certamente será lembrado para sempre.

Agora, voltando a outro assunto. Se o sentido do automobilismo é a morte? Pelo menos é isso o que diz André Forastieri em seu blog. A resposta que eu encontro que é não, não é. Talvez o risco seja um dos sentidos que dão graça ao esporte, mas o risco controlado, o mesmo que permite fazer com que o sujeito entre no Globo da Morte ou no trampolim no circo e escape ileso, para a alegria geral do público. E ninguém fala que um trapezista ou um motociclista tenha tendências suicidas. Só que, infelizmente, são elas -as famigeradas mortes- quem fazem o automobilismo evoluir no campo da segurança. É esta tentativa diária de evitar a repetição das famigeradas mortes nas pistas que fazem o esporte evoluir. E, parece bem claro, o ‘controle’ das mortes foi o que permitiu fazer com que o automobilismo entrasse no sistema ‘mainstream’ de esportes legais, de esportes bacanas, de esportes familiares, que todos gostam de ver e se emocionar com eles. Antes disso, o automobilismo era apenas uma máquina de moer carne, ignorada por todos e temida pelos pais e parentes dos destemidos que pilotavam as suas máquinas.

Comparo a situação atual da Indy com a da Fórmula 1 em 1994 e da Nascar em 2001. E, no caso, Dan Wheldon pode ter para a Indy a mesma importância que perdas de campeões como Ayrton Senna e Dale Earnhardt tiveram como marco da virada no jogo da segurança das suas respectivas categorias. Claro que em todos existiram fatores de fatalidade e de irresponsabilidade, mas a ideia principal da análise de um acidente não é o linchamento em praça pública, mas sim o estudo para desenvolver meios de evitar acidentes semelhantes no futuro. A Indy tem uma vantagem. O projeto de carro seguro está pronto para ser colocado em ação no próximo ano -ironia do destino, testado e desenvolvido pelo próprio Dan Wheldon. Diferente do que as categorias supracitadas, que demoraram um tempo para aplicar as mudanças que evitaram acidentes mais graves e implementaram o novo patamar de segurança. Talvez uma ou outra alteração demandada pelos últimos acontecimentos. Mas o projeto tá lá.

Se a Indy souber gerenciar a tragédia, pode criar uma categoria mais segura e ter neste triste acontecimento -que aconteceu e nada vai apagar isso, nem tirar do site, como a Indy está fazendo, avisa o mestre Luis Alberto Pandini em seu blog. A ideia do para-choque, aplicada ao novo chassi da Dallara -agora batizado de DW001 em homenagem a Wheldon-, é uma ótima solução para evitar o catapultamento do bólido, causa inicial do acidente. Enfeia um pouco o carro, mas a solução, aqui, não é estética. É de segurança. E poderia ter evitado o acidente que lhe tirou a vida neste domingo. Melhora nas fixações dos alambrados? Aumento na resistência do santo-antônio? Tudo isso ainda deve ser estudado, mas imagino que o será.

O grande problema, como comprova a atitude mesquinha da categoria neste caso, é que a Indy só tem tomado atitudes bizarras há muito tempo. Apagar a história de nada vai adiantar. O ideal seria enfrentar a história. Mas decisões sensatas não tem sido o padrão da Indy nos últimos anos. A impressão que tenho é que tudo isso pode desencadear um processo de auto-destruição como outra morte em final de temporada da Indy (na época ainda CART) provocou. No caso, Greg Moore, que morreu em um acidente em Fontana, em 1999. Seria uma pena que a história se repetisse como farsa.

One Comment

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  1. Ron Groo / out 19 2011 4:39 pm

    Vi este caso sobre apagarem as informações do site da Indy, achei muito estranho.

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